Lendo uma revista, defrontei-me com uma pesquisa sobre sexualidade, a qual apresentava o seguinte dado: mais de 40% dos homens brasileiros de 15 a 25 anos, apesar de gostarem de sair, de ficar com garotas desregradas, optariam por se casar com uma mulher casta. Na reportagem, havia a seguinte frase: As mulheres que os homens brasileiros mais desejam são as recatadas. Todos entendem essa frase sem qualquer problema, já que, na linguagem cotidiana, usamos sempre os termos da oração em ordem direta, ou seja, iniciamos a oração pelo sujeito, depois colocamos o verbo para, em seguida, acrescentarmos seu complemento (objeto direto ou objeto indireto) ou o predicativo do sujeito. Está claro, então, que os homens brasileiros desejam mais as mulheres recatadas que as outras”, não é mesmo? Não é bem assim, não.
O que ocorre é que nem sempre a oração é escrita em ordem direta, o que pode acarretar ambiguidade sintática. Por exemplo, ao dizer Desejam as mulheres os homens, não há como saber ‘quem deseja quem’, pois a oração está em ordem inversa. Qual seria a ordem direta da frase? As mulheres desejam os homens? Ou Os homens desejam as mulheres? Perceba que a oração iniciada pelo verbo desejar trouxe ambiguidade sintática à frase. Não há clareza. O mesmo ocorreria se a frase fosse As mulheres os homens desejam ou Os homens as mulheres desejam.
Na frase apresentada (As mulheres que os homens brasileiros mais desejam são as recatadas), há clareza quanto a ‘quem deseja quem’ porque obtivemos informações sobre a pesquisa antes de lê-la e por sabermos que está em ordem direta. Há construções sintáticas, no entanto, sem informações anteriores esclarecedoras, e com os termos em ordem inversa, como vimos no parágrafo anterior, o que dificulta o entendimento geral da mensagem. Para evitar isso, podemos usar alguns elementos que nos auxiliam. Um deles é o pronome relativo.
Às vezes o pronome relativo que, usado na frase As mulheres que os homens brasileiros mais desejam são as recatadas, também provoca duplo sentido. Observe a frase, retirada de um jornal: A direção do hospital não deixou que o Presidente conversasse com os pacientes atendidos por enfermeiras inexperientes que acusavam o hospital de maus-tratos. A passagem ambígua é "...pacientes atendidos por enfermeiras inexperientes que acusavam o hospital...”. O pronome relativo que provoca a ambiguidade, pois, da maneira como o período foi construído, tem-se a impressão de que as enfermeiras acusavam o hospital, mas, segundo o jornal, os pacientes é que o acusavam de maus-tratos, praticados pelas enfermeiras. O que fazer, então, para evitar a dupla análise sintática? Vejamos a explicação:
O pronome relativo que pode SEMPRE ser substituído pelos também pronomes relativos o qual, a qual, os quais, as quais. O gênero e o número desses pronomes dependem do elemento substituído por eles. Se for feminino, singular, substitui-se por a qual; feminino, plural: as quais; masculino, singular: o qual; masculino, plural: os quais.
Na frase retirada do jornal, por exemplo, a substituição impediria a ambiguidade, uma vez que substituiríamos o substantivo pacientes por os quais, e enfermeiras por as quais. A frase ficaria assim: A direção do hospital não deixou que o Presidente conversasse com os pacientes atendidos por enfermeiras inexperientes os quais acusavam o hospital de maus-tratos. Pronto. Acabou-se o problema; os quais, pronome relativo masculino, plural, só pode referir-se a pacientes: os pacientes eram atendidos por enfermeiras inexperientes; os pacientes acusavam o hospital de maus-tratos.
Na nossa frase, porém, o problema continuaria, pois, ao realizarmos a substituição, formaríamos a seguinte frase: As mulheres as quais os homens brasileiros mais desejam são as recatadas. A ambiguidade sintática permanece. Continuamos sem saber ´quem deseja quem´, porque a ambiguidade existente na frase é sintática, não semântica: que ou as quais
Há outro pronome relativo que também substitui o que: é o pronome quem.
Esse pronome nunca exerce a função de sujeito e, quando exercer a de objeto direto, será antecedido pela preposição a
Pode-se, então, substituir que por a quem: As mulheres a quem os homens brasileiros mais desejam são as recatadas. Agora, sim, temos uma frase adequada ao Português padrão, sem duplo sentido, quase perfeita.
Existem, portanto, três maneiras de estruturar a frase da revista: com que, com as quais e com quem:
As mulheres que os homens brasileiros mais desejam são as recatadas.
As mulheres as quais os homens brasileiros mais desejam são as recatadas.
As mulheres a quem os homens brasileiros mais desejam são as recatadas.
Nas duas primeiras, o pronome relativo exerce a função de objeto direto. Na última, a de objeto direto preposicionado. A melhor de todas é a última, uma vez que, como vimos, é a única que não carrega duplo sentido.