Gramática On-line | Por Prof. Dílson Catarino

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Ultima atualização: 14 NOV 2013

/ GRAMÁTICA

Variação Linguística

A língua não é una (com N mesmo), ou seja, não é indivisível; ela pode ser considerada um conjunto de dialetos. Alguém já disse que em país algum se fala uma língua só. Há várias línguas dentro da oficial. E no Brasil não é diferente. Cada região tem seus falares, cada grupo sociocultural tem o seu. Pode-se até afirmar que cada cidadão tem o seu. A essa característica da Língua damos o nome de variação linguística.

Qualquer cidadão, quando resolve emitir algumas palavras, faz isso não isoladamente. As frases ditas por cada um de nós não são construídas por nós próprios, mas sim por tudo que nos fez tornar o que somos hoje: nossa família, a terra em que nascemos e em que vivemos, as escolas em que estudamos (principalmente nas séries iniciais), as pessoas com as quais convivemos, os livros que lemos, os filmes a que assistimos, enfim, nossa maneira de falar é formada, não é criada. E é formada pouco a pouco. Aliás, nunca é totalmente acabada. Imagine um idoso que nunca aprendeu a ler nem a escrever entrando em contato com as letras; seu mundo se transformará. Ele se apoderará de um conhecimento nunca antes imaginado. Passará a usar expressões desconhecidas até então e se tornará um cidadão de fato. O mesmo acontece com os indivíduos que aprenderam a ler e a escrever, mas que não leem nem escrevem jamais. Se passarem a entrar em contato com o mundo das letras, por meio de romances, contos, textos filosóficos e poesias, transformarão sua visão de mundo e passarão a ter um novo falar, uma vez que terão o que falar: aquilo que leram.

 

A variação linguística mais evidente é a que corresponde ao lugar em que o cidadão nasceu ou no qual vive há bastante tempo. Há jeitos de pronunciar as palavras, há melodias frasais diferentes de região para região. A variação mais famosa do Brasil é o s chiante do carioca da gema.

Antes de continuar, um adendo ao que acabei de escrever: o adjetivo chiante não é depreciativo ao modo de falar do carioca, e sim um termo usado na fonologia – ou fonética – que representa um som cujo ponto de articulação é pré-palatal, como ocorre nas palavras chá e . É assim que o carioca pronuncia o s. E a locução da gema? Você sabe o significado dela? É o mesmo que sem mistura, genuíno, puro. Carioca da gema, portanto, é o cidadão nascido na cidade do Rio de Janeiro; não aquele que para lá foi e lá vive há muitos anos.

 

Voltemos à variação linguística, então: dizia eu que a mais famosa é o s chiante do carioca. É a mais famosa, mas não é a única. Outra bastante perceptível pelo visitante é o r retroflexo do norte-paranaense quando pronuncia palavras como porta, carne, certo e do habitante do interior de São Paulo quando pronuncia essas mesmas palavras e também as que têm r entre vogais: cara, cera, tora. Retroflexo significa curvado para trás, flexionado para trás. É o que acontece com a língua quando ocorre a pronúncia das palavras apresentadas: a ponta dela é flexionada para trás, às vezes até exageradamente. É uma pronúncia idêntica à de car em Inglês.

Também o L (ele), na região de Pato Branco, PR, que é alveolar, mesmo antes de consoante e no final da palavra. Alveolar é o nome dado à consoante que, quando pronunciada, é articulada com a ponta da língua próxima ou em contato com os alvéolos dos dentes incisivos superiores. Na região de Pato Branco, pronuncia-se o L de alto da mesma forma que o L de alô.

 

A essa variação, que corresponde ao lugar, dá-se o nome de variação diatópica. Essa palavra é formada pelos seguintes elementos:

 

dia-, prefixo grego que significa através de, por meio de, por causa de;

topos, radical grego que significa lugar;

-ico, sufixo grego, que forma adjetivos.

 

A variação diatópica pode ocorrer, como vimos no parágrafo anterior, com sons diferentes. Quando isso acontecer, dizemos que ocorreu uma variação diatópica fonética, já que fonética significa aquilo que diz respeito aos sons da fala.

 

A diferença, porém, pode não ser de som, mas sim de vocabulário, ou seja, de palavras diferentes em sua estrutura. Por exemplo, em Curitiba, PR, os jovens chamam de penal o estojo escolar para guardar canetas e lápis; no Nordeste, é comum usarem a palavra cheiro para representar um carinho feito em alguém; o que em outras regiões se chamaria de beijinho. Macaxeira, no Norte e no Nordeste, é a mandioca ou o aipim. Essa variação denominamos de variação diatópica lexical, já que lexical significa relativo a vocabulário.

 

A diferença pode não ser de som nem de vocabulário. Pode estar na estrutura frasal, ou seja, na frase toda. Em algumas regiões brasileiras é comum a utilização do pronome tu; em outras, não. No Maranhão, no Espírito Santo e no Rio Grande do Sul, um cidadão diria o seguinte: Tu já estudaste Química?. Na maioria dos outros estados, o cidadão diria assim: Você já estudou Química? A essa variação chamamos de variação diatópica sintática, já que sintático significa parte da gramática que estuda as palavras enquanto elementos de uma frase.

 

Outra variação bastante evidente também é a que corresponde à camada social da qual o indivíduo faça parte. O falar de um cidadão é subordinado ao nível socioeconômico e cultural dele. Quanto mais estudo tiver, mais bem trabalhadas serão suas frases. Quanto mais livros ler, mais cultura terá. Quanto mais exemplos tiver de seus pais e professores, mais facilmente se comunicará com os demais.

Essa variação, no Brasil, é facilmente identificada. Basta conversar com um cidadão humilde, com poucos anos de estudos, que já perceberá uma linguagem diferente da habitual de outras classes sociais. Frases como Naonde a gente podemos ponhar esse troço aqui? ou como Houveram menas percas não são ouvidas em um ambiente em que estejam professores, médicos, cientistas, advogados, etc. São frases comuns a quem não teve oportunidades para ascender a estratos sociais mais privilegiados.

A essa variação, que corresponde ao estrato social, à camada social e cultural do indivíduo, dá-se o nome de variação diastrática. Essa palavra é formada pelos seguintes elementos:

dia-, prefixo grego que significa através de, por meio de, por causa de;

estrato, radical latino que significa camada;

-ico, sufixo grego, que forma adjetivos.

 

A variação diastrática, como também ocorre com a diatópica, também pode ser fonética, lexical e sintática, dependendo do que seja modificado pelo falar do indivíduo: falar adevogado, pineu, bicicreta, é variação diastrática fonética. Usar presunto no lugar de corpo de pessoa assassinada é variação diastrática lexical. E falar Houveram menas percas no lugar de Houve menos perdas é variação diastrática sintática.

 

A última variação, não menos importante que as anteriores, é a que corresponde à licença que cada um de nós tem para falar e escrever o que bem entender da maneira que quiser. É a que permite um cidadão culto usar informalmente a expressão Eu encontrei ele no lugar de Eu o encontrei. É a linguagem informal, solta, às vezes até desleixada. Principalmente o jovem tem o hábito de usar essa variação. É bastante comum ouvirmos um veio, com o e aberto, numa conversa entre adolescentes ou um mano na alta sociedade. É comum também essa variação na linguagem caseira, em que pai, mãe e filhos não estão preocupados com a comunicação dentro da norma padrão, ou na linguagem descontraída de uma roda de amigos. Outra modalidade desta variação ocorre na Literatura, na qual o autor de poesias, contos, romances, novelas, etc. tem a liberdade de cometer deslizes, de inventar palavras, de recriar estruturas sintáticas, enfim, tem liberdade para aplicar seu estilo em seus escritos. Isso tem até nome: licença poética ou liberdade poética.

 

A essa variação, que corresponde à liberdade de expressão, dá-se o nome de variação diafásica. Essa palavra é formada pelos seguintes elementos:

dia-, prefixo grego que significa através de, por meio de, por causa de;

phasys, radical grego que significa expressão;

-ico, sufixo grego, que forma adjetivos.

 

A variação diafásica, como ocorreu com a diatópica e com a diastrática, pode ser também fonética, lexical e sintática, dependendo da liberdade de que o indivíduo tenha se apossado. Dizer veio, com o e aberto, não porque more em determinado lugar nem porque todos de sua camada social usem, é usar a variação diafásica fonética. Um padre, em um momento de descontração, dizer presunto para representar o corpo de pessoa assassinada, usa a variação diafásica lexical. E, finalmente, um advogado dizer Encontrei ele, também num momento de descontração, no lugar de Encontrei-o é usar a variação diafásica sintática.

 

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