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"Que não seja imortal posto que é chama"

12/08/2014

Vinícius de Moraes escreveu os seguintes versos:

 

“Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure”.

 

            Determinando o significado dos versos de Vinícius, chegamos à conclusão de que ele pretendia estabelecer uma indicação de causa:

 

- o amor não é imortal porque é chama, fogo.

- já que o amor é chama, morre.

 

            O que ocorre, porém, é que a locução “posto que” não é causal, e sim concessiva, ou seja, inicia uma oração subordinada que exprime oposição ao que é dito na oração principal, não sendo capaz, porém, de anular ou impedir o fato mencionado.

 

As conjunções e as locuções conjuntivas concessivas são as seguintes: embora, conquanto, apesar de que, se bem que, mesmo que, ainda que, em que pese, por mais que, posto que. Exemplos:

 

- Embora seus pais sejam contra, casar-nos-emos no fim do ano.

- Ele não se decidiu pela carreira artística posto que tivesse talento (= embora tivesse talento).

- Não concorreu ao cargo em que pese tivesse condição de conquistá-lo (= embora tivesse condições).

 

 

            Vinícius errou, então? Não. Ele se utilizou do que chamamos de licença poética, que é a liberdade que toma o poeta, algumas vezes, de transgredir as normas da poética ou da gramática. Caso ele não se utilizasse dessa prerrogativa e quisesse escrever dentro das normas cultas da Língua Portuguesa, teria de usar uma conjunção (ou uma locução conjuntiva) causal, que são as seguintes: porque, porquanto, já que, visto que, se, como (só no início de frase), uma vez que. Teria, então, de fazer isto, dentre outras possibilidades:

 

Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal visto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

            O leitor atento deve ter percebido que registrei a conjunção “se” entre as causais. É certo isso? Veja o seguinte exemplo:

 

- Se suas riquezas foram a causa de sua perdição, seria melhor que as não houvesse conseguido”.

 

            Aparentemente a conjunção “se” é condicional, conjunção bastante estudada e facilmente memorizada pelos jovens alunos. Todo bom estudante sabe que a frase “Se você estudar, aprenderá” equivale à frase “Caso você estude, aprenderá” ou à frase “Desde que você estude, aprenderá” ou ainda à frase “Na condição de que você estude, aprenderá”.

 

            Ocorre, porém, que a conjunção “se” não é apenas condicional; ela também pode ser causal. Esta é bastante utilizada por nós, mas raramente a percebemos como causal. Já houve, inclusive, questões de vestibulares anuladas porque a banca examinadora, desatenta, apresentara uma frase com a conjunção causal, mas, equivocadamente, a denominara de condicional.

 

 

- Se será conjunção condicional quando iniciar uma oração subordinada em que se expressa uma hipótese ou condição necessária para que se realize ou não a ação principal. As conjunções condicionais são as seguintes: se, caso, desde que, etc. Veja este exemplo:

 

- Se você não estudar, nada aprenderá = Caso você não estude, nada aprenderá = Desde que não estude, nada aprenderá.

 

 

- Se será conjunção causal quando, obviamente, indicar causa, podendo ser substituída por outra conjunção (ou locução conjuntiva) causal. São elas: porque, porquanto, já que, visto que, como (só no início de frase), uma vez que. Veja este exemplo:

 

- Se você não me amava, não deveria ter-me conquistado”.

 

Essa frase equivale às seguintes:

 

- Já que você não me amava, não deveria ter-me conquistado.

- Uma vez que você não me amava, não deveria ter-me conquistado.

- Você não deveria ter-me conquistado porque não me amava.

 

 

            A frase apresentada, portanto, não indica condição, mas sim causa:

 

- Já que suas riquezas foram a causa de sua perdição, seria melhor que as não houvesse conseguido”.

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