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A cidade reprova no teste da transparência (ou é reprovada?)

29/04/2014

 

Num jornal da região havia a seguinte frase como manchete do dia: “A cidade reprova no teste da transparência”, acerca da Lei n 12.527/11, que passou a vigorar naquela época. A Lei diz que os órgãos públicos têm de fornecer um sistema, denominado de Sistema de Informações ao Cidadão (SIC), para garantir a qualquer interessado a possibilidade de obter as mais variadas informações. Segundo a reportagem, na Prefeitura de Londrina, na Câmara de Vereadores e no Fórum, havia desconhecimento da lei, morosidade e falta de informações.

 

Assim que li a manchete do jornal, fui tomado de um estranhamento incontinente. Notei que faltava algo na frase; faltava um complemento para o verbo “reprovar”, que é um verbo indicador de ação-processo. Tais verbos, segundo o Dicionário Gramatical de Verbos do Português Contemporâneo do Brasil, de Francisco da Silva Borba – Editora Unesp, “denotam ações realizadas por um sujeito agente ou de uma causação levada a efeito por um sujeito causativo (aquele que provoca um efeito ou o que causa a ocorrência de uma ação ou de um processo), que afetam um complemento”, ou seja, as ações realizadas pelo sujeito afetam o complemento do verbo. Como na frase apresentada há um verbo indicador de ação-processo, este tem de ter um complemento, mas não o há.

Vejamos os significados e usos do verbo em questão:

 

O verbo “reprovar”, como visto acima, indica ação–processo com sujeito agente:

 

Com complemento expresso por nome não animado, segundo o dicionário citado, significa rejeitar:

 

- Os técnicos da Fiat reprovaram o motor a álcool.

- O próprio orador não acolheu a informação, reprovando-a.

- O desenhista trouxe vários cartazes, mas o assessor reprovou todos.

 

Com complemento, apagável (ou seja, pode ser omitido da frase), expresso por nome humano, significa não aprovar; julgar inabilitado:

 

- Havendo um só candidato, a eleição se faz num único turno, devendo os eleitores do colégio apena aprovar ou reprovar o candidato.

- O futuro piloto fará testes práticos e teóricos que poderão reprová-lo.

- O professor Luís reprovou grande parte dos alunos.

- Clóvis é um professor que não reprova.

 

Observe que nessa última frase, o complemento foi ‘apagado’, mas há um sujeito agente – o professor – e um complemento não mencionado – alunos.

 

Pode ainda o verbo “reprovar” indicar ação com sujeito agente e com complemento, apagável, expresso por nome humano. O verbo indicador de ação denota atividade expressa pelo verbo e realizada pelo sujeito agente; indica, assim, um fazer por parte do sujeito: “O pássaro voa”; “O homem pensa”; “O garoto brinca”.

 

O verbo “reprovar”, neste caso, significa “censurar, criticar”:

 

- João Batista reprovava o entusiasmo fora de propósito.

- Gostaria tanto de que você não me reprovasse.

- A mãe olhava aquela bagunça e reprovava sacudindo a cabeça.

 

Na última frase, o complemento não foi mencionado, mas há-o.

Você, leitor estudioso, agora se pergunta: “Mas não foi feito isso na manchete apresentada?” ou seja, o complemento não foi mencionado. Respondo-lhe: o complemento do verbo “reprovar” pode não ser mencionado, mas há de ser um termo paciente – aquele que sofre a ação praticada pelo sujeito agente. Nas frases em que isso ocorreu neste texto, está claro que o sujeito é agente (O professor Clóvis e a mãe) e está também claro que o complemento é paciente (Os alunos não são reprovados; a bagunça é reprovada). Já na frase apresentada como título deste texto, o sujeito – a cidade – não é agente; se o fosse, deveria haver um termo paciente, que seria o elemento rejeitado, ou julgado inabilitado, ou criticado. Porém, a cidade rejeita quem? Julga quem inabilitado? Critica quem? Ninguém! A cidade é que é reprovada no teste da transparência. Os jornalistas testaram os órgãos públicos da cidade e os reprovaram, julgaram-nos inabilitados.

 

Já que a cidade é o termo paciente e já que não surge o termo agente, o ideal seria construir a frase com sujeito paciente e omitir o agente, ficando assim estruturada:

 

A CIDADE É REPROVADA NO TESTE DA TRANSPARÊNCIA.

 

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